Inadimplência no Agro Sobe para 8,8% no Produtor Rural em 2026
Levantamento da Serasa Experian mostra alta da inadimplência entre produtores rurais, com maior concentração no Norte e Nordeste e entre agricultores mais jovens
A inadimplência no agronegócio voltou a preocupar o setor produtivo. Segundo levantamento inédito divulgado pela Serasa Experian, o índice de produtores rurais pessoas físicas com dívidas em atraso chegou a 8,8% no primeiro trimestre de 2026 — um avanço de 1,2 ponto percentual em relação ao mesmo período do ano anterior e de 0,6 ponto percentual frente ao trimestre imediatamente anterior.
O dado considera dívidas com mais de 180 dias de atraso contraídas junto a empresas ligadas ao agronegócio, o que reforça a preocupação com o fôlego financeiro do produtor rural brasileiro neste início de 2026.
Por que a inadimplência no agro está subindo
De acordo com Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, o aumento gradual da inadimplência reflete a dificuldade de parte dos produtores em recuperar sua saúde financeira após ciclos anteriores mais difíceis. Mesmo com perspectivas melhores para alguns segmentos do agronegócio, os efeitos de custos elevados, oscilações de preços das commodities e restrição ao crédito rural continuam pesando no fluxo de caixa e na capacidade de pagamento do setor.
Esse cenário reforça um ponto que já vem sendo debatido pelo setor produtivo: a necessidade de instrumentos mais eficientes de gestão de risco, como o Seguro Rural e o crédito rural bem estruturado, para dar mais previsibilidade financeira ao produtor diante de anos de safra mais apertados.
Grandes produtores e arrendatários têm os maiores índices
O levantamento traz um dado que chama atenção: proporcionalmente, quem mais atrasa pagamentos não são os pequenos produtores. Os produtores sem informação de registro rural — categoria que reúne arrendatários e integrantes de grupos familiares ou econômicos — lideram a inadimplência, com 11% de atraso.
Em seguida aparecem:
- Grandes proprietários rurais: 9,9%
- Médios produtores: 8,6%
- Pequenos produtores: 8,3%
O resultado indica que o porte da propriedade, isoladamente, não é garantia de maior fôlego financeiro — a estrutura de custos, o nível de endividamento e a exposição a diferentes culturas pesam tanto quanto o tamanho da área plantada.
Produtores de 30 a 39 anos lideram a inadimplência por idade
Outro recorte relevante do estudo é o etário: a inadimplência é maior justamente entre os produtores rurais em fase mais ativa da carreira. A faixa de 30 a 39 anos apresentou o maior percentual de atraso, seguida pelos produtores de 18 a 29 anos e de 40 a 49 anos. A partir dos 50 anos, os índices caem de forma gradual.
Esse padrão sugere que produtores mais jovens, muitas vezes em fase de expansão e maior tomada de crédito rural para investimento, também estão mais expostos ao risco de inadimplência quando o cenário de preços e custos se torna desfavorável.
Norte e Nordeste concentram as maiores taxas de inadimplência no campo
O recorte regional escancara uma desigualdade importante dentro do agronegócio brasileiro. O Norte registrou a maior taxa de inadimplência entre produtores rurais, com 13,2%, seguido por:
- Nordeste: 10,2%
- Centro-Oeste: 10,1%
- Sudeste: 7,3%
- Sul: 6,2%
A diferença entre o Norte (13,2%) e o Sul (6,2%) — mais que o dobro — evidencia como o acesso a crédito, seguro rural e estrutura de comercialização ainda varia muito entre as regiões produtoras do país.
Agro Score cai e sinaliza aumento do risco de crédito no setor
Além da inadimplência, a Serasa Experian também apontou uma queda na pontuação média do Agro Score, ferramenta que mede o risco de crédito no agronegócio usando inteligência artificial e machine learning para cruzar dados financeiros, cadastrais e informações específicas da atividade rural. A média caiu de 606 pontos, no primeiro trimestre de 2025, para 591 pontos no mesmo período de 2026.
Essa ferramenta é usada por instituições financeiras, cooperativas e empresas do setor para avaliar o risco na concessão de crédito rural — e a queda na pontuação tende a impactar diretamente as condições oferecidas ao produtor na hora de renovar financiamentos ou contratar novas linhas de crédito.
O que esse cenário significa para quem vive do campo
Os números da Serasa Experian reforçam um alerta importante para quem depende do agronegócio: a gestão financeira e o planejamento de crédito precisam caminhar junto com a atividade produtiva, especialmente em regiões e faixas etárias mais expostas ao risco. Entre os pontos de atenção para o produtor rural estão:
- Negociar dívidas em atraso antes que o Agro Score seja ainda mais impactado;
- Buscar linhas de crédito rural compatíveis com o fluxo de caixa da propriedade;
- Considerar instrumentos de proteção, como o Seguro Rural, diante de oscilações climáticas e de preços;
- Reforçar o planejamento financeiro em fases de expansão, especialmente para produtores mais jovens;
- Acompanhar de perto a saúde financeira do negócio, principalmente nas regiões Norte e Nordeste.
Com um cenário de crédito mais restritivo e custos ainda elevados, a recomendação de especialistas do setor é clara: antecipar problemas financeiros e buscar orientação especializada faz toda a diferença para manter a atividade rural sustentável e evitar que a inadimplência avance ainda mais nos próximos trimestres.
Marcelo Rios Witzel
15 de julho de 2026
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